15 Cubos de gelo
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Reparei no modo estranho como alguém me olhava. Uma rapariga franzina, de cabelos loiros que lhe caíam pelo rosto em caracóis perfeitos. Num segundo olhar, tornou-se claro: Era ela. Ainda possuía a beleza avassaladora que eu tentei retratar, inúmeras vezes, sem sucesso. Nesse dia não parei para lhe explicar como continuo a beber chá de camomila com a colher lá dentro ou como mantenho o cabelo curto porque me disse, um dia, que realçava os traços de carmim do meu rosto. Nunca entendi o que queria dizer por traços de carmim, mas preferia não indagar, não fosse perdê-los. Nesse dia não parei para lhe explicar que as pessoas importantes deviam manter-se sempre à distância de um sopro, e ela já estava à distância de um coração.
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19 Cubos de gelo
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- Já viste que nunca chegámos a tirar uma foto juntos? - Não gostavas de fotografias, eu também não. - Pois era. - Achas que se as tivéssemos tirado, as conseguíamos manchadas de amor?
- Muito provavelmente. Amar com força era a tua melhor característica.
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10 Cubos de gelo
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Gosto de ti porque me incendeias a alma, mas nem chegas a tocar no coração. É como se estivesses já demasiado entranhado em mim para que conseguisse amar-te. Ainda tento compreender, de ingenuidade calcada no coração, o que te torna tão singular. Talvez seja mesmo isso: a tua falta de código, a tua alma em bruto que ninguém se lembrou de limar. A tua falta de invólucros, o celofane em que nunca foste embrulhado. Essa tua beleza crua, sem os mínimos contornos de cetim. Já tive medo de ser envolvida nesse teu jeito, mas o medo dissipou-se para dar lugar a uma segurança desconfiada. Suficiente para te contar que te amo com gosto e sem coração. De saudades bem vivas,
inês.
Letter #10 - to someone you don't talk as much as you'd like to. (2/2)
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13 Cubos de gelo
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- Tenho uma pergunta entalada na garganta. - Cospe-a. - Porque te importas? - O quê? - Inconscientemente afastas tudo o que me possa danificar. Porque te importas tanto comigo? - Não sei bem. - Não faz mal. Eu também gosto mais assim, de coração vendado.
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9 Cubos de gelo
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Já me desgastaste o ser e roubaste sentido às palavras. Tornar-se-ia cansativo, continuar a repetir como me fizeste bem ao fazer-me tanto mal. Repetir-te como gosto muito de ti, mas agora um bocadinho mais. É o que acontece quando o amor se vai: intensifica-se o gosto. E o amor foi-se, sem que nós tivéssemos oportunidade de ripá-lo ou tingi-lo. Foi-se sem que eu lhe pudesse sentir o perfume. Agora vou esperar pela altura em que tudo o que fomos não passará de uma memória turva, e aí seremos unha com carne. Amigos de coração, aceitas? Da nês, tomás. esta é da inês para ti.
Letter #10 - to someone you don't talk as much as you'd like to. Part 1/2
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11 Cubos de gelo
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Esse teu novo ser faz-me uma confusão dos diabos. Admito que gostava de ainda te saber de ponta a ponta. Conhecer-te os cantos de coração que nunca ninguém viu, cada limbo de alma que ainda ninguém tocou. Saber exactamente a quantidade de ousadia que te circula no corpo. Admito, ainda gostava de te ser tudo. Mas só de vez em quando. E só um bocadinho.
Letter #9 - to someone you wish you could meet.
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16 Cubos de gelo
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- Se eu te pedisse, fugias comigo?
- Não, não. Terias de me pedir com os olhos e levar pela mão.
O nome do blogue mudou, porque já estava para mudar há algum tempo. E eu gosto, eu gosto muito.
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11 Cubos de gelo
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- Confias facilmente nas pessoas?
- Não confio, ponto. Mas cedo, de vez em quando. Pequenos rasgos no tecido de reforço. Mas sempre de agulha na mão. É que as pessoas conseguem ser más, conseguem ser mesmo muito más.
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13 Cubos de gelo
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É o calor evaporando-se nos poros. As sucessões desleixadas de movimentos. Gritos que nos raspam o coração ao de leve e acabam diluídos num céu que não é de ninguém. Sorrisos de olhos em demasia. Nasceres de sol de olhos semi-abertos e mergulhos de meia noite, só para podermos dizer que estivemos juntos um dia inteiro. Vestidos de encanto subjugado e aplasia no coração. Beijos de orquídeas e abraços de jasmim. Recordações de palcos que um dia foram os nossos. Que o serão ainda. Toques suaves de doçura desmedida. Amores de fim-de-tarde e paixões de de manhã cedo. Noites que teimam em não acabar e dias que nos fogem entre os dedos. Pedaços de amor degustados, em tons de carmim.
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14 Cubos de gelo
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Ainda me sinto a menina de laço pregado à camisola, mas o tempo passa e nós deixamos de ter doze anos. Já não sou de fragilidade tão atingível como era, já não sou papel amachucado. Já não sou feita de aço derretido, não, agora sou acetinada. Voltamos ao mesmo. Cúmplices desconhecidos. Dois anos depois e voltamos a não ser nada. Dois anos depois e eu voltaria a esquecer-me do teu nome, garoto, se não me estivesse gravado na alma.
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15 Cubos de gelo
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- Achas que as palavras são capazes de moldar ou rasgar afinidades de alma, lis? - As palavras não sei, mas os pronomes possessivos talvez. Por exemplo, se deixasses de dizer 'óh minha lis' eu acho que ia chorar muito, porque tua é tudo o que sou.
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15 Cubos de gelo
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Disseste umas quantas palavras de rasgão, cobertas em medo, e eu engracei com essa tua ousadia. A partir daí desatámos em cruzares de alma saídos de lado nenhum. Percorremos mundos que nos são comuns e outros que nos separam por um fio de lã. Tentamos entendê-los, definir-lhes os estados. Gasosos ou líquidos? Ficam com jeito que nos apetecer. Dá-te mais jeito filtrá-los ou empilhá-los? Logo se vê. E daí nasceu uma amizade suportada por uma base de afeição e comforto. Sabes o que me delicia em ti? As palavras são-te tão pouco. És pessoa de gestos, como eu. Escrava dos beliscões de coração a que és submetida. Mas o medo que nos corrói não é igual ao medo que te ameaça os limbos da alma, não: tu temes o afastamento. Tens medo que o mundo se rasgue e tu não pertenças a ninguém. Mas eu não vou a lado nenhum, sabes? Com muito amor, por me seres porto de abrigo, Inês. Letter #8 - to your favourite internet friend.
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12 Cubos de gelo
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Eu disse que hoje voltava a isto em Setembro, e hoje já é Setembro. O blogue faz um ano, sabem? Não há muito a acrescentar quanto a este facto, queria só dizer que isto completa um bocadinho a minha vida, que vocês todos me fazem bem. Por isso, parabéns a vocês.
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