8 Cubos de gelo
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«Gosto mesmo muito de ti, está bem? Mais do que se possa escrever em duas linhas. Mais do que se possa sequer escrever, seja em quantas linhas for. Por isso não te quero escrever nenhum bilhete, porque nunca consigo caracterizar as tuas expressões - que sabes que eu gosto muito - ou dizer como és. Até já tentei tirar-te fotografias, mas nunca te fazem jus, sabes? Antes importava-me com isso, mas agora já não. Só preciso que fiques sempre muito perto de mim, para nunca ter de aprender a descrever-te a tinta. O bilhete para ti, da Inês.»
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9 Cubos de gelo
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- Finalmente! - Querias alguma coisa? - Era só para dizer que tinhas o cabelo muito bonito hoje.
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9 Cubos de gelo
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- Já estabelecemos que não somos semelhantes, permanecemos reflexos espelhados. Mas ainda assim... Não possuo a tua sensibilidade. Tu vês mais. Identificas cicatrizes em olhares, quebras em movimentos. Ver pessoas virando estilhaços. Vidas lascarem. Tábuas partirem. Tudo se quebra à tua volta, mas manténs-te intacta. - É isso que te faz confusão? - Não. O que me faz confusão é partilhar dessa tua visão. Tudo se desmorona. Toda a carne se dilacera. Todo o tecido cicatriza. Todos os sentimentos se fragmentam. E nós permanecemos, sacundido o peso dos nossos ombros. Colhendo lágrimas, como se nada fosse. Olhando para o pior dos cenários e soltado uma gargalhada irónica. - Nós somos diferentes. Embora tu estejas, à tua maneira, tão danificada quanto eu.
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7 Cubos de gelo
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- Estás demasiado frágil. - Estás demasiado forte. - Estamos demasiado próximos. - De afecto excessivo.
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18 Cubos de gelo
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- És demente. Não sorris com os lábios mas quando te perguntam afirmas estar em êxtase interior. És extremamente desajeitada, mas não desgosto disso. Dá-te um jeito diferente, uma terna singularidade. És uma espécie de mistura de Frankenstein e branca de neve. Gostas de contos de fadas - distorce-los até ficarem à tua medida. Macabramente aprazíveis. Não há quem te entenda. O que realmente me arrepia é seres extremamente coerente. Sabes que a vingança é um veneno letal que nos turva o sangue mas não negas o prazer que tens em aplicá-la nos outros. És como pólvora - até queimas. óh se queimas. Mas de forma passiva. Nunca interferes com vidas. Planeias, executas e limpas o sangue das mãos, mas tudo apenas na tua mente distorcida. Vá-se lá saber que tipo de atrocidades imaginas tu cada vez que sorris. Mas tens o teu lado doce. Não lhe chamaria meiguice, talvez sejam pequenos raios de luz branca refractando nas quatro paredes pretas do teu coração. - Engraçado; julgava-me opaca.
(este texto já foi publicado anteriormente, mas agora tem outro sabor.)
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11 Cubos de gelo
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Irrita-me a tua apatia a acções ampliadas. Não falas, finges-te robot. Eu sei que não és nenhum robot óh palhaço. Os robots não pegam fogo a corações. Tu queimas. Tu feres. Tu magoas. Robot o caraças. Tu és gajo, dos piores que por aí andam. Sabes qual é a tua sorte? É teres-me cativada nesses olhos verdes (sim, são verdes óh atrasado) e nessa cara de menino cheio de sonhos. Com pessoas tão feiinhas por aí, tinhas tu de me sair assim - até nisso foste cabrão. Depois de teres sido um filho da mãe e eu ter sido estúpida o suficiente para te desculpar comecei a duvidar da veracidade das tuas palavras. Fiquei atenta, a tentar perceber-te o jogo. Mas tu continuaste comigo. Pensei que era uma nova táctica. Mas sete meses depois, continuavas comigo. E eu comecei a achar que se calhar se tinham acabado as jogadas, e que se calhar até gostavas mesmo de mim. Perdoa-me a ingenuidade. Inês, 30.05.10.
(peço desculpa pela linguagem.)
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18 Cubos de gelo
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- Porque é que os pijamas têm bolsos? - Para os pequeninos é só para aquecer as mãos, mas para os grandes é para guardar bem os sonhos. Eles estão sempre a esquecer-se deles.
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13 Cubos de gelo
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- Eu tive saudades tuas, consegues explicar-me porquê? - Isso não sei, mas sei bem porque é que eu tive tuas. Assim do nada tornaste-te lugar seguro, sabes? Costumo esconder-me em mim, mas agora és-me lugar seguro e posso esconder-me em ti. Não há muita gente assim. És eu, de carapaça reforçada. És eu, porque te tenho em mim.
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13 Cubos de gelo
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Encontrei-te umas quantas vezes deambulando pelos cantos da minha casa, a contar histórias efusivamente. Não privámos muito, mas lembro-me de te admirar o entusiasmo, a forma como gritavas à vida que não ias morrer. O meu irmão gostava muito de ti, e há poucas pessoas que o cativem dessa forma. Tinhas vinte e dois anos, com a liberdade ainda a correr-te nas veias. Tinhas vinte e dois anos quando te mataste. Não há forma suave de o dizer. Tinhas vinte e dois anos quando o mundo deixou de ser teu, vinte e dois anos quando a tua paixão pela vida foi encarcerada no teu próprio corpo e tu te mataste. Perguntei-me durante algum tempo o porquê. Foi porque o mundo te retirou o brilho às histórias, não foi? Arrancou-o das páginas da tua alma.
Letter #11 - to a deceased person you wish you could talk to.
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19 Cubos de gelo
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- Sabes descrever-me?
- Bem, tu és bonito. Invulgar, mas bonito. És muito calmo, gostava de ser mais como tu. E és mesmo bom a dar abraços. Eu lembro-me que gostava muito dos teus abraços, sim. - Só isso? Isso é tudo o que achas que sou? - A mim já não me és nada.
(desculpa-me por não ter remorsos do que disse, sim? é que dói, e tu tinhas de aprender que as palavras doem.)
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