3 Cubos de gelo
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- A chuva não cessa, o coração também não. A apatia quebra por momentos e dá lugar a um sentimento oco. Não é desprovido de conteúdo, é apenas irrelevante. - Amor? - Cru, despido. Na sua forma mais bruta. Mesmo assim não ocupa lugar. É um sentimento-fantasma, sabes? - Dos que não se sentem na sua plenitude. Que nos tocam por momentos, com uma intensidade superficial.
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3 Cubos de gelo
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A busca incessável do movimento. Já se nasce assim, com esta espécie de veneno no sangue. Já se nasce com esta maldição. O contacto das almas. O que é, o que poderia ser. A crueldade da beleza pura. A respiração ofegante. Os corações pingando sangue. Por fim, a exaustão. Morta no palco. A busca, a descoberta, revelaram-se inúteis. Tudo foi arrancado do corpo com sucesso. Foi um espectáculo bonito. A morte dá sempre ênfase à vida.
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7 Cubos de gelo
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- Se fosses uma flor, eras o quê? - Não sei, inventava uma. Não tinha muitas pétalas, como as rosas. Quatro chegavam. E era carmim. Ou azul-bebé. Há alguma assim? Eu quero azul-bebé. - Não sei, deve haver. E o que ias fazer como flor? - Sei lá, ia só esperar que alguém pegasse em mim e me achasse bonita. - Podia ser eu? - Podias. Mas ias meter-me onde? - Ia levar-te sempre comigo. - Mas eu ia morrer. - Eu arranjava um copo pequenino para te meter. - E andavas mesmo sempre comigo? - Andava.
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6 Cubos de gelo
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- Tinha saudades tuas, lis. É como se carregasses os meus sonhos ao colo. Quando tu vens, eles também voltam sempre. - Eu não deixo eles irem embora mais. - Eu também não.
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4 Cubos de gelo
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Aqui as paredes cobrem-nos os sonhos e o chão derrete solidões. Inês, estúdio, 01 de Março de 2011.
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8 Cubos de gelo
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- Quais seriam as tuas últimas palavras para o amor da tua vida? - «Tive saudades tuas a minha vida inteira.»
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4 Cubos de gelo
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- Gostas de te apaixonar por ti mesma? - Sabe-me melhor do que quando me apaixono por outros. É aquela proximidade indestrutível, incrivelmente forte. É quando a felicidade sobrepõe todos os outros sentimentos possíveis. Como se estivesse a ser enrolada num cobertor muito apertado, que me protege mais do que alguma vez alguma pessoa o fez. São as alturas em que o mundo fica tão mais bonito, por termos alguém com quem o partilhar. Por termos mais aquele bocadinho de nós que desconhecíamos. Por nos sabermos um bocadinho melhor. Por termos aprendido a viver mais um bocadinho.
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4 Cubos de gelo
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Estavas linda. Os fios de cabelo desordenados teimavam em esvoaçar-te para a face, atraídos pelas duas bolas pretas brilhantes que tens no lugar dos olhos. Sorrias em demasia. A minha alma estremecia só de te ver fazê-lo. Disse-te que parecias assustada e abraçaste-me. Sempre gostei particularmente dos teus abraços, por nunca serem capazes de fingir nada. És tão forte o tempo inteiro, mas partes-te em pedaços quando te aperto com força. A tua fragilidade embebeda-me o corpo e fico a ser forte por ti um bocadinho. Beijei-te o ombro ao de leve, com demasiado cuidado, para que nem sequer reparasses. Suave, como quem brinca com uma rosa. Secreto, que a coragem apouca-se sempre que estás por perto.
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6 Cubos de gelo
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- Tento sempre fugir a esta pergunta dizendo que gosto de muita gente. Apaixono-me todos os dias por pessoas, gestos e palavras diferentes. Mas nunca definitivamente. Por isso começo a achar que também eu não sou feita para amar alguém do jeito que se ama. Se calhar sou mesmo o tipo de pessoa provisória de quem não se consegue gostar durante muito tempo. Se calhar a minha inconstância é demasiado acentuada para ser suportável. Se calhar sou como as flores, demasiado efémera. Não é fácil amar-me. Talvez nem seja mesmo possível.
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15 Cubos de gelo
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No fundo no fundo sei que ainda gosto e irei sempre gostar de ti um bocadinho simplesmente por me seres muito confortável, por me deixares ser eu e pronto. Não há sorrisos forçados, movimentos premeditados. Sou só eu, no meu aborrecido e apático ser. Hei-de ter-te sempre como sinónimo de porto de abrigo, se não te importares. Inês, 22 de Março de 2011.
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