7 Cubos de gelo
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Ela? Ela é o ser mais perfeito que já vi. Não é particularmente bonita, tem a ver com a forma como se move. Cada movimento é irresistível, cada olhar é cheio. Encantava-me tanto, tanto. Era como se a conhecesse só de poder olhar para ela. Nunca vi ninguém tão interessante. E depois sorria-me, olhava-me com as duas bolas brilhantes que tem nos olhos, falava-me, e sem querer envolvia-me deste amor unilateral. Ao início era irrelevante. Depois comecei a querer tê-la nos meus braços. A preocupar-me com as nódoas negras que tinha nas pernas, a decorar-lhe as variações de cor dos olhos. Comecei a chatear-me quando ela não me prestava a atenção que eu queria. Parece sempre tão forte, mas não é. E as pessoas têm de saber disso, para pararem de a magoar tanto.
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4 Cubos de gelo
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Raiva. Uma sala vazia. O eco do sofrimento: o silêncio. A ausência de som. O gelo dos corpos empacotados em ilusões profundas. O buraco. A queda. Da altivez, se calhar. Das almas, diria-o eu. A tensão dos músculos. A dificuldade do movimento. O medo a tomar proporções exageradas. Deixamos de respirar, e só depois deixamos de nos mover. Estamos mortos, finalmente.
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11 Cubos de gelo
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- Sofres sempre tão sozinha. - A dor é um sentimento individual, um pesar unilateral: a minha dor não é a mesma que a tua. Nunca vou sofrer como tu. Vai ser sempre um sofrimento solitário. - Como? A tua dor chega-me sempre à derme. Parece superficial, mas arranha e fere. Chega a fazer-me contorcer tanto que acabo chorando em posição fetal. - A minha dor infiltra-se em ti? - Como todos os outros pedaços do que és.
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7 Cubos de gelo
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- Sujeitamo-nos a montes de merdas pelas pessoas de quem gostamos.
- Nunca te ouvi falar assim. Quem quer que te tenha sido, lixou-te mesmo. Desfez-te os sonhos e esmigalhou-te o coração que costumava parecer sempre tão inteiro.
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8 Cubos de gelo
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- Pareces-me uma pessoa muito altruísta. - Não, de todo, sou aliás muito egoísta. Descobri que é preciso sê-lo para saber tomar conta de mim. Quando não parava para tomar conta de mim, acabava perdida num mar de quases e copos meio-cheios. Meios termos abomináveis. Mas isto não quer dizer de modo algum que não sou capaz de dar a minha vida por certas pessoas, mas não seria por altruísmo, seria apenas motivado pelo amor. Era quase que acidental. Faria-o porque sei que não suportaria viver num mundo em que elas não existem. Egoísmo? Muito. Amor? Em demasia.
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3 Cubos de gelo
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- É amor? - É proximidade solidificada, partilha de corações. São noites a ver as estrelas e dias de conversas intermináveis. Abraços apertados e ternura aos bocados. É amor, são muitos pedaços de amor espalhados em dois corpos, e ainda assim não envolve amor nenhum.
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2 Cubos de gelo
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Estás escrita nas flores, gritaste o teu nome ao Sol. Viveste em cada pétala de rosa, calcaste cada pedaço de chão. Encheste a rua com o teu cheiro, que agora funciona como veneno letal para o meu corpo. És um fantasma na minha vida, e agora não consigo mais negar a tua presença. Passeaste e dançaste sem rumo, correste sem intenção, cravaste o teu nome na minha alma sem querer.
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8 Cubos de gelo
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- Existem coisas que não contas a ninguém? - Existem coisas que calo até de mim mesma.
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8 Cubos de gelo
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Escrevo por gosto. Pelo prazer de sentir o bico afiado do lápis a cravar o papel. Pelo som quase inaudível do carvão raspando o papel. Escrevo pelo deleite de abrir o caderno e o ver escrevinhado, borratado até, de sentimentos fátuos, de sensações ligeiras. De amor sob diversas formas.
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8 Cubos de gelo
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- Esperamos mais das pessoas do que elas podem dar, é o que é. - E depois vem a desilusão. E depois vem a ilusão de novo. E depois apercebemo-nos que o problema afinal é nosso. Depois fingimos que não, e continuamos à espera que consigam ser tudo o que precisamos que sejam. Um reflexo nosso, moldado aos nossos olhos. Dito desta forma parece uma ideia demente. Mas o que somos nós, senão isso?
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8 Cubos de gelo
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Um dia fotografo todas as tuas expressões, deixo-as espalhadas em bancos de jardim e faço o mundo apaixonar-se por ti.
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9 Cubos de gelo
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«O café estava sempre demasiado quente. O tabaco era sempre inconfundível, fumavas sempre em compassos certos e com a mesma intensidade. A morfina psicológica do ar que te rodeia ataca-me sempre todos os músculos e faz a minha alma tombar. Na mão trazias um pequeno livro de páginas já amarelas, desgastado pelo tempo. Disseste-me que podia cheirá-lo, sabendo ser o vício de qualquer leitor. Estávamos separadas por uma distância mental enorme, um abismo psicológico. Este bilhete era só para te deixar saber que foi a primeira vez que me soube tão bem estar tão afastada mentalmente de alguém, e ainda assim a sentir-te tanto em mim. Podias deixar-te ficar aqui para sempre. Levemente, esquecendo o amor. Podes ficar em mim para sempre.»
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12 Cubos de gelo
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Gostava de ser contadora de histórias. Gostava de partilhar mundos e de escrever com canetas de feltro na alma de toda a gente. Gostava de desenhar sonhos em corações e folhear pessoas como folheio livros. Gostava que fossemos menos de ferro e mais de papel, que fossemos mais de tinta permanente e cantos vincados do que somos de carvão.
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21 Cubos de gelo
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- É-te pior perder alguém por um erro teu ou deles? - Por um erro meu. O peso da culpa é um fardo pesado para o coração aguentar.
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8 Cubos de gelo
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- Inês? - Como achas que seria a tua vida se não me tivesses conhecido? Achas que seria diferente? - Era muito diferente. Sem ti seria menos doce, menos algodão, menos boneca de vida. Seria um bocadinho mais triste. Um bocadinho mais fria. Mais céptica. A magia seria-me um conceito abstracto, e provavelmente iria dar mais valor às coisas literais. - Também me sinto assim, sabes. Acho que se não te conhecesse, ia achar as coisas que as coisas que me fazem especial defeitos. Seria apenas estranha.
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