5 Cubos de gelo
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Gosto das minhas zonas de conforto, admito. De me sentir segura por fiozinhos de aço e pessoas de algodão-doce. Gosto de pijamas azuis clarinhos que fazem lembrar abraços. Gosto do verniz transparente que é quase quase branco e de ver a rosa vermelha no cabelo preto ligeiramente ondulado. Gosto de longas tardes de verão e pessoas ligeiras, como uma brisa de ar fresco. Gosto de papoilas e jasmins. Olhos grandes e abraços fortes. De grandes baldes de gelado às cores. Gosto de smarties e de unicórnios, porque são mágicos. Gosto de tudo o que seja surreal. Gosto de diferenças e singularidades adoráveis e de amor aos bocadinhos.
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4 Cubos de gelo
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Livre. Movimentava-se com uma fluidez particular, nunca deixava o movimento morrer. Mesmo quando estava imóvel, era visível a olho nu o percurso do sangue pelas suas veias. Falava comigo e ria. Falava comigo e dava gargalhadas encantadoras de tão pouco controladas que eram. Não era bonita. Era, aliás, particularmente desinteressante fisicamente, com o seu tipo de corpo comum e cabelo escuro liso. Particularmente sem graça. Estranha. A forma como descrevia histórias macabras sem ser denunciada pela expressão do seu rosto era aterradora. Falava pouco, ria muito. Era tão sem graça - e eu engracei com ela.
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4 Cubos de gelo
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- Achas que sou uma pessoa má lis? - Não, porquê? - Tanta gente me o diz que começo a acreditar. - Não, estás terrivelmente longe de ser má. És uma pessoa boa, só que ficas confusa muitas vezes porque não queres magoar os outros, e acabas por magoá-los na mesma sem querer. - E não consigo deixar de estar. - Eu sei, mas não faz mal. Quando não te confundes fazes muito bem a toda a gente. A mim fazes sempre, mesmo quando a tua cabeça é só riscos.
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5 Cubos de gelo
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Os batimentos metamorfizam-se. Tum-tum, amei-te. Tum-tum, morreste em mim. O mundo parece desabar. É adorável, a coordenação dos batimentos. A forma como ficamos envolvidos na melodia e deixamo-nos ficar dentro de nós por um bocadinho. De repente, tudo pára. De forma brutal, quase macabra. O som ausenta-se, a sinfonia estragada regressa. Gosto de fingir que morro em compassos certos, e depois volto sempre à vida, de forma menos superficial. Talvez um dia me deixe ficar, no silêncio tumultoso das almas tingidas.
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4 Cubos de gelo
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O som terminava de forma dramática, e eu parava por momentos. Já não me importava. A minha imagem de felicidade são pessoas-almofada às quais me posso agarrar para sempre. Tecidos fofinhos à alma. São mesmo pessoas de algodão doce, por esta característica de protecção adocicada. São pequenos fios de lã nos quais me posso embaraçar à vontade sabendo que continuo segura. Portos de abrigo que guardo junto ao coração. Pessoas de algodão, que me parecem sempre gigantes de ferro.
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9 Cubos de gelo
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- Sou menina de biblioteca. - De sonhos recortados, amores gritantes. Becos de insignificâncias. Mediocramente doseada de compaixão. Fátua, inconstante. De sabores e texturas. De canções a compasso incerto. Ilusões fortes, desejos altivos. Antíteses. - Sou de duas faces, e não tenho problemas em admiti-lo: papel de lustro e ferro, extremos necessários.
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